Precisamos discutir a questão da saúde mental dos estudantes na universidade.

No começo do mês de julho (2017) um vídeo circulou pela internet e causou um certo furor nas redes sociais. No vídeo, realizado pela RICTV (Santa Catarina), alguns estudantes de arquitetura da UFSC foram entrevistados pelo fato de estarem dormindo na universidade, e digo isso não no sentido de quem dorme durante alguma aula por cansaço ou desinteresse, mas no sentido de passar as noites dentro das salas de aula, com direito a colchonete, travesseiro e coberta.

Quem cursa ou já cursou arquitetura sabe muito bem que a carga de atividades extraclasse é realmente muito grande. Recentemente, um estudo realizado pela National Survey of Student Engagement (NSSE) da Universidade de Indiana concluiu que o curso de Arquitetura e Urbanismo é o que mais demanda horas de estudo, superando cursos como Direito (65º) e Medicina (28º), por exemplo. Estudantes de arquitetura trabalham uma média de 22,2 horas por semana, representando 2,5 horas a mais do que qualquer outro curso. O estudo foi realizado com calouros e veteranos de diversos cursos, e representam a quantidade média de tempo gasto para se preparar para a aula por semana, incluindo ler, escrever e fazer trabalhos de casa ou de laboratório / estúdio.

Não podemos ignorar que esse estudo é um reflexo da realidade das universidades dos Estados Unidos. É possível que os resultados fossem diferentes se houvesse um estudo similar aqui no Brasil. Inclusive, seria algo construtivamente positivo, uma vez que seria possível analisar o empenho e desempenho tanto dos alunos quanto das próprias universidades.

Mas vamos voltar ao assunto do vídeo. Como já dito, os alunos do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFSC estavam passando as noites na universidade para dar conta das entregas de final de semestre. Eu já virei noites por conta de entregas, imagino que muitos de vocês também, mas alguém aí já virou noites na própria faculdade? A impressão que fica é que, a cada ano, a carga de atividades vem aumentando consideravelmente ou a tal da “geração Y” está cada vez mais improdutiva e insatisfeita?

O vídeo circulou nas redes sociais e, independentemente da maneira como a matéria foi conduzida (com tom sensacionalista ou não), não faltaram comentários agressivos, debochados e que menosprezavam aqueles graduandos, do tipo “isso é frescura”, “estão exagerando”, “sempre deixam tudo para a última hora”, “comigo não foi assim”.

A intenção aqui não é julgar essas pessoas de tais comentários, menosprezando da mesma forma, até porque não existe uma verdade absoluta para esse assunto, mas temos que ter sempre em mente que o mundo está em constante evolução, e isso inclui nossa educação, nossas profissões e até mesmo nosso modo de vida (assunto para um próximo artigo). Portanto é desleal comparar a formação acadêmica da geração dos nossos pais com a de agora, por exemplo. Mais desleal ainda é um aluno de outro curso dizer que “o pessoal da arquitetura está exagerando”. Só quem vive aquela realidade pode opinar com propriedade.

E é aqui que entra o debate proposto por esse artigo: o sistema de ensino superior tem criado, cada vez mais, um problema de saúde mental em larga escala. Essa carga de atividades, trabalhos e estudos tem de fato preparado os estudantes para a vida profissional ou tem se tornado um excesso de “tarefismo”?

A cobrança intensa, a pressão por bons resultados, boas oportunidades de trabalho e até mesmo por uma rotina competitiva tem levado alguns jovens ao limite, ao esgotamento mental. Somado a isso, temos o fato de que, muitas vezes, eles se veem obrigados a abrir mão de suas vidas sociais e momentos de lazer para dar conta de todas as tarefas. Isso é saudável?

A maioria das universidades tem um sistema tradicionalista e burocrata, que funciona da mesma maneira para todos os cursos. Mas se os cursos são diferentes entre si, com propostas e objetivos diferentes, por que a maneira de avaliação deve ser igual? No curso de arquitetura e urbanismo, por exemplo, existe uma grande quantidade de trabalhos extraclasse que envolve projetos, maquetes, e outras atividades quase que exclusivas desse curso. Estudantes de direito, por exemplo, não precisam gastar horas com uma maquete. Entretanto, ambos os cursos são avaliados com provas escritas. Muitas vezes no curso de arquitetura e urbanismo há também a exigência de relatórios e fichamentos para complementar a quantidade de notas necessárias para atender ao sistema da universidade. “Para atender ao sistema da universidade”…. Isso não é tarefismo? Por que não podemos focar no que realmente importa e formar profissionais realmente capacitados para o mercado de trabalho e pessoas que realmente farão a diferença em nossa sociedade?

Nenhum ambiente de ensino tem a proposta integradora, questionadora, criativa e produtiva como a universidade. Mas na prática não é bem assim que acontece. Além de todos os problemas supracitados, é comum também o desencorajamento por parte de alguns professores. Abuso de autoridade, terror psicológico, preconceitos, atitudes machistas, perseguição por opiniões políticas, além do “esqueçam as outras matérias, só a minha é importante” estão presentes na rotina dos graduandos, as vezes disfarçados de “piadas”. Os professores deveriam ser aqueles que nunca nos deixam desistir, que sempre nos encorajam a sermos melhores.

O produtivismo da universidade [publish or perish/ “publica ou perece” epidêmico entre professores-pesquisadores] e o individualismo narcisista universitário vêm contagiando os alunos, gerando neles alta ansiedade, estresse, desencadeando transtornos psíquicos, pânico de não dar conta dos trabalhos e provas, pavor de ser julgado como intelectualmente incapaz pelos colegas e professores, bullying etc. (“Não deixe que essa universidade, ou algumas pessoas que nela estão te contaminem assim como fizeram comigo” disse Luiz Carlos de Oliveira, 20 anos, estudante de Filosofia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), antes de se enforcar).¹

Curso competitivo, individualismo, auto cobrança, problemas de autoestima, falta de vida social e de momentos de lazer….depressão. Só até abril de 2017, foram registrados 6 casos de tentativa de suicídio na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), e a situação só se agravou até o final do ano. Durante a primeira quinzena de maio, 2 suicídios e 1 tentativa na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). E esses são só alguns casos para ilustrar a proporção do problema. Uma pesquisa conduzida pelo The Architect’s Journal revelou que 26% dos estudantes de arquitetura do Reino Unido buscam ou já buscaram tratamento para problemas relacionados à saúde mental e outros 25% preveem que precisarão de tratamento no futuro. Será que “é só frescura” mesmo?

Estudantes da Universidade Federal de Viçosa iniciaram um movimento levantando a hashtag #NãoÉNormal nas redes sociais, além de atividades presenciais. Eles pedem por mais atenção por parte das universidades e do público em geral para com a questão da saúde mental. Segundo uma das organizadoras do movimento, Bruna Matos, o objetivo principal das atividades é promover um debate sobre questões e posturas tomadas pela universidade, que de alguma forma prejudicam o desempenho e a saúde dos estudantes.

Precisamos discutir a questão da saúde mental dos estudantes na universidade. Esse problema é um fato presente no nosso dia-a-dia que não podemos ignorar. E você, o que pensa sobre isso?

 

Notas:

1. Lima, Raimundo de. Os suicídios e a universidade produtivista. Outubro/2013. Revista Espaço Acadêmico. Disponível em: http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/viewFile/22070/11718 (acesso em 18/07/17)

 

* As imagens presentes ao longo do texto são ilustrações de Tristán Comics

“Durante os anos de faculdade, Tristán propôs amenizar a extensa carga horária do curso de arquitetura criando sátiras de alunos, professores e da rotina da graduação, chegando, de algum modo, à criação do protagonista dos quadrinhos mostrados a seguir: um estudante mediano no curso de arquitetura. 

Motivado para desfazer a visão fechada em relação aos dogmas acadêmicos e as complexidades de ser um estudante de arquitetura, seu pensamento crítico se manifestou com humor no campo das histórias em quadrinho.” 

Fonte: Archdaily